terça-feira, 3 de novembro de 2009

Caixote do Lobo



António Sérgio
1950-2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Caixote da Faculdade

Há onze anos atrás, andava no último ano da faculdade. Vagueava por lá um professor lunático e fascinante, que, depois da minha professora da escola primária (a minha querida mãe), foi quem mais me ensinou sobre a escrita.
Chama-se Luís Carmelo. Penso que ainda anda por lá a dissertar sobre os mistérios da Semiótica, o enredo dos filmes e a arte de escrever.
Hoje, tirei ali do móvel a pasta (já tenho móveis para guardar pastas) das aulas dele, que guardo como uma preciosidade.
Ri. Sorri. Suspirei. Voltei a rir. Voltei a sorrir. Suspirei.
Pensei se devia publicar aqui um dos textos que escrevi nas aulas dele. Resolvi transcrever um texto pequenino da aula em que ele queria ensinar a "transformar abstracções na nossa própria linguagem".
Escrevi assim:

Os anjos são crianças que nunca vão crescer. São azuis clarinhos para se confundirem com o céu e não os vermos quando nos protegem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Caixote dos fantasmas.

"Na criação de um anúncio fantasma, a liberdade do criador de anúncios se aproxima da liberdade do artista. A ausência da pressão do tempo e a inexistência da visão crítica das pesquisas ou de quem encomendou o anúncio torna o anúncio fantasma uma peça de arte publicitária pura. Dá a todos a oportunidade de ver como seria a publicidade se ela não fosse uma expressão da arte, da ciência e da técnica de vender produtos."
Celso Japiassu

Não sendo uma obra de arte, é um dos meus anúncios fantasmas.




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

De um caixote luso-belga.

Lenga-lenga


Porque choras, meu menino?
Por aquilo que imagino.

O que está atrás da cortina?
Uma boneca assassina.
O que está atrás da porta?
Uma bruxa com a espinha torta.
O que está debaixo da cama?
Um alfinete-de-ama.
Quem te está a pôr a mão?
Um bicho papão.

Se acenderes a luz,
Será que ele cai ao chão?

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Regresso

Sim, sim, é um texto lamechas o que se segue.

Quando abri este blogue, não sabia que o textinho introdutório era tão premonitório. Eu não sabia que se ia iniciar um longo período de caixotes a caír, com as coisas a saltarem cá para fora em total desordem, deixando tudo muito baralhado.
Hoje é o primeiro dia em que escrevo desde que uma tempestade entrou na minha vida. Estou um bocadinho nervosa e a medir bem as palavras para não me exceder. E sim, confesso, estou até a choramingar. Voltei a escrever! (sim, com o publicitário e irritante ponto de exclamação e tudo!)
Não vou fazer um relato. Vou só dizer que passei e passo por transformações que não queria, mas que estão aqui. Não posso fazer nada para as evitar. Tento aceitá-las e aproveitar para crescer. Dores de crescer, é o que é. Tinha tudo mal empacotado.
E agora, quero encontrar caixotes e caixinhas bonitas para o meu armazém. Ando à procura nas montras das lojas.
No meio de toda esta confusão, descobri um contentor, daqueles que os camiões grandes carregam, sólido e robusto. Quando o abri para ver encontrei a minha família e os meus amigos. Ninguém teve medo da tempestade com chuva gorda e nuvens pretas que eu trazia. Algumas destas pessoas tão maravilhosas, revezaram-se e seguraram com força um guarda-chuva por cima de mim. A chuva entrava na mesma,mas não me batia com tanta força. Nunca estive sózinha. Não sei como lhes agradecer. Mas agradeço sempre que posso e como posso.
E agora, apesar dos caixotes ainda estarem muito molhados, já consigo ver algumas coisas boas e más que estavam lá guardadas e eu tinha que tirar ou arrumar de maneira diferente.
No centro do armazém há um caixote muito confuso. Ando a evitá-lo. Tem escrito MUITO FRÁGIL por fora. Só sei que ainda não sei como o arrumar.
As obras da minha casa terminaram.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Saida da caixa.

Estou em casa.

Com empenho de ir para a rua sem sair do sofá. Estou cá.

Bates à porta. Eu não estou. Tocas a campainha. Eu não vou.

Deves ser tu.

Fico aqui quietinha com o som do meu mutismo. Fico cá.

Conto os passos do sofá à porta. Tão longe. Talvez vá.

E se és mesmo tu? Já lá vou.

Só fica em casa à espera, quem não vive lá.

sábado, 4 de abril de 2009

Caixote do coração

Quando eu era muito pequena, a minha mãe era a moderadora entre as minhas questões existenciais, o resto do mundo e os seus arredores. Eu perguntava e ela explicava o universo todo.
Lembro-me bem de ficar assustada com o barulho das ambulâncias. Fazia-me uma aflição danada. De mão na mão dada pela minha mãe, seguiamos pela rua, até que chegava aquele tinoni aterrador. Aflita. Perguntava-lhe então quem ia na ambulância. Ela, com os seus calmantes olhos verdes, olhava-me e explicava: “É um bebé que vai nascer. Está com pressa de sair cá para fora.” Satisfeita a minha curiosidade, lá seguiamos o nosso caminho. Eu contente. Ela pacificada.
Passaram os anos e eu continuo a ficar aflita com aquele som agressivo e triste. A verdade é que penso sempre em bebés. E fico mais calma. Desejo uma hora curtinha à futura mãe.
Há explicações que fazem sentido. E que ficam. Mesmo que só para mim. Mesmo que só para nós.

Parabéns.